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Para Venda> Rafaella Degani


O trabalho expõem a releitura de uma das obras do artista Paulo Nazareth (obra sem título da série "Para Venda"). De acordo com minha compreensão, a obra original de Nazareth pretende abordar a temática da figura “exótica” enquanto sinônimo de interesse e capricho de terceiros, inteiramente não concernentes a tais culturas incorporadas como “heteróclitas”. Encontra-se a introdução de elementos distintivos e caracterizantes, que intentam emblemar a “excentricidade” a qual o artista se refere.


Na releitura que realizo, coloco como figura principal a compleição de uma mulher trajada com vestimentas que pertencem a religião afro-brasileira denominada umbanda. As semelhanças com a obra de Paulo são muito similares, e o único elemento que se altera é a cultura e “modelo de excentricidade” pela qual busco explorar. Nessa fotografia, aprofundo e mesclo tanto a ignorância, e, curiosidade social, que coexistem nas distintas populações acerca das religiões de matrizes africanas, como também, a percepção do diferente enquanto desejo de "posse". É importuno proferir que a obra pode se correlacionar com a alusão histórico-social-cultural dos “zoológicos humanos”, estabelecimentos populares na região da Europa e América do Norte ao longo do século XIX, e início do século XX. Também conhecidas como “vilas de negros”, ou, “exposições etnológicas” tais exposições ficaram assinaladas como exemplares perversos do tipo de “olhar” que as sociedades ocidentais construíram sobre outros povos e culturas neste período.


Os zoológicos humanos utilizavam como argumento elementar, o estudo das diferentes etnias que, para eles, era o meio crucial para justificarem a elaboração de teses absurdas e incabíveis. Todavia, na realidade factual, o que ocorria em tais exposições era a exibição de homens, mulheres, idosos e crianças das mais distintas etnias. Os indivíduos eram encarcerados em jaulas, exatamente com animais, ou, então, em espaços que procuravam explorar, da maneira mais realista, seus ambientes "naturais” (ou estados primitivos). Tais fatos eram todos presenciados e observados por visitantes caucasianos (brancos), que obtinham "curiosidade" de como tais indivíduos costumavam viver em suas sociedades.


Outrossim, não é necessário traçar fronteiras desmedidas para patentear a essência de tal releitura, uma vez que o próprio fenômeno da escravidão, no território nacional brasileiro, já é capaz de dilucidar de maneira fluída e clara a finalidade da obra. A mulher negra e escrava era desrespeitada e exposta à abusos por partes de seus senhores, afora, ainda engravidando desses e tendo seus filhos julgados de bastardos (sendo criados sozinhos pelas mães). O trabalho de serviçal doméstica foi uma recorrência na vida das escravas, não se caracterizando, em certos casos, somente como oportunidade primacial para o mercado de trabalho, mas como, o único meio viável de ocupação cedida a tais mulheres, até porque, ainda assim, se tratava de um trabalho escravo, dessa forma, tais indivíduos serviam meramente como mão de obra e intermédio de exploração.

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